.:: O circo mais que perfeito! ::.

O menino nasceu. Era tão pequeno e sem cor que assustou médicos e enfermeiros e a propia mãe, que sentiu um aperto no peito ao ouvir seu primeiro choro, manso e desprovido de energia. A pele sem brilho e quase transparente recobria os ossinhos frágeis que se quebravam feito vidro. Ate no ventre da mãe o bebe sofreu pequenas fraturas. A doença o acompanharia pela vida inteira e faria estragos sem volta, condenando-a a usar uma cadeira de rodas para sempre. Ainda no inicio da gestação Elisa resolveu dar ao filho o nome de Marco Pólo, inspirada na informação  de que esse fora um grande viajante. E isso era o que ela sonhava para o filho: conhecer lugares e pessoas, ver coisas que ela jamais poderia e ate, quem sabe, aprender línguas difíceis. Mas a doença do pequeno derrubou suas expectativas . ele era só um tiquinho de gente para enfrentar uma vida tão dura...
_Talvez meu Marco nunca possa sair desta casinha..._ chorava desolada. Mas em vez de se abater, a mãe trabalhou com determinação  durante os primeiros anos da vida do filho, fortalecendo-o e enchendo-o de carinho, dando comidinhas simples e gostosas, nutrindo-o também de historias fantásticas que ela mesmo inventava. Algumas tirava de fatos acontecidos. Em outras se inspirava nos relatos que ouvia. Entre a correria de cuidar da casa, lavar roupa, cozinhar e costurar para a vizinhança sempre tinha o rádio ligado. Ele era uma fonte inesgotável de informação: um rio que transbordava inundando centenas de casas, logo virava história para o pequeno Marco. Uma baleia encalhada era um prato cheio. A partida de um foguete que ia para o espaço, então nem se fala.
Quando não podia estar com menino, a mãe o colocava próximo a uma janela ou ate mesmo na porta da rua. _Marco preste atenção em tudo! A rua  e feito um cinema meu filho,onde coisas acontecem. Fique de olhos abertos para o mundo e as pessoas também olharam para você.
Dito e feito: Marco se tornou conhecidos de todos no bairro. _Bom dia seu Augusto! Tá abrindo a padaria mais tarde hoje? _Tô atrasado, filho, mas logo trago um pãozinho quente para você!
_ Oi Márcia! Corre pra não perder o ônibus. Bom trabalho! _Obrigada Marquinho!Passo no fim da tarde para dar um oi!
_Mãe!- gritava ele para dentro de casa. – A dona Eva vai levar a Sara e a Julia no postinho de Saúde. Ela quer deixar o Rafael aqui em casa Pode?
Claro que pode! To indo ai. Desde sempre mais ainda agora, aos 9 anos, Marco Polo imaginava  com intensa paixão a alegria de ir a um circo de verdade. Limitado pela sua condição, resolveu criar um. Na sua imaginação, a lona começou a ganhar contornos, ate que passou a brigar uma boa trupe de artistas: mágicos, palhaços, malabaristas, contorcionistas, músicos, bailarinas e é claro trapezistas. Foi então que ele mesmo marcou a estréia: seria no sábado seguinte.
Na data marcada ele pediu a irmã que o levasse ate  a calçada,onde ficaria esperando a mãe chegar do trabalho. _ Acho que não é boa idéia – disse a menina. – Esta frio lá fora e mamãe vai demorar, foi fazer os salgadinhos em uma festa. O bom é que ela sempre volta com uns docinhos para a gente...
-... Tem nada, não, Marcinha! Traz a manta vermelha para cá e vou ficar bem. A lua de um dourado pálido surgiu na cortina de veludo do céu, bordada com pedras faiscantes. Bem aquecido, Marco fechou os olhos, aspirou profundamente o ar frio e recostou a cabeça para descansar um pouquinho. Logo em seguida, o circo surgiu bem na frente, todo listrado em amarelo e azul, a lona salpicada de pequenas lâmpadas e estrelas verdadeiras. Era a coisa mais grandiosa e bela que vira em toda a vida.
Com naturalidade ele mesmo desamarrou as correias que o prendiam a cadeira e saiu caminhando devagar, aproveitando a mágica daqueles passos intensamente desejados. Entrou no circo no momento exato do inicio da apresentação.
Uma das trapezistas segurou-lhe a mão e indicou onde devia subir. Foi tudo tão fácil! De repente, ele já estava lá em cima, dando uns saltos mortais. A vontade suprema se realizava em cada movimento. Mãos  fortes o lançavam no ar e ele se deixava levar.
A multidão  aplaudia cada gesto, completamente hipnotizada pela figura do menino. A música e as palmas o embalavam naquela arte de encantar. Um salto final: uma, duas, três, quatro, cinco voltas e ele foi inundado pela graça da felicidade inteira. A terra girou mais rápido. Em seguida um gelo na barriga... o fôlego faltou e ele não teve mais tempo. O coração acelerou tudo que podia e parou subitamente.
Já era quase meia noite quando Elisa chegou em casa. Estranhou ver o filho ao relento, nua noite fria como aquela, e as fivelas soltas nos cintos da cadeira. Pegou-o no colo e, embora o menino sorrisse levemente, ela percebeu que ele não estava mais ali.
Yêda Marquez.